sábado, 27 de novembro de 2010

As irmãs Lispector

"A imaginação se abrasava, impelindo-a para longe da vida que teimava em querer aniquilá-la. Pela manhã, sentia o corpo doído, os nervos formigando à flor da pele, tentando inutilmente amainar a violência do coração."  (No exílio, p. 146 - Elisa Lispector)


"- Tudo um sonho apenas, mas um sonho mau, perturbador. Então, a vida é só isto? - prosseguiu. - E para chegar-se a isto, tantas mutilações, tantos anseios frustrados, tanta mentira. - As lágrimas corriam-lhe agora abundantes, que eram lágrimas de revolta." (No exílio, p. 147 - Elisa Lispector)


Achei válido colocar aqui esses trechos do livro que estou lendo, da Elisa Lispector (irmã da Clarice) .
É incrível como essa família consegue com as palavras mostrar o que têm por dentro. O que me admira mais ainda é que quando leio, parece que eu estou lendo uma fotografia de mim mesma.
É bom ler essas literaturas introspectivas/autobiográficas porque além de ver que não sou o único turbilhão de sentimentos confusos que existe no mundo, eu começo a ver que é possível se entender - nem que seja um pouquinho; nem que seja de forma fragmentada; nem que seja para simplesmente saber como eu sou paradoxal todo o tempo.
Pelo menos eu começo a saber um pouco como sou, ou pelo menos achar que sei, e isso é melhor do que viver em uma cegueira de mim mesma, porque, como dizia a irmã caçula da Elisa: "Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação" 

domingo, 21 de novembro de 2010

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Um mês até o fim de tudo isso.

Será que eu agüento?





Mais que nunca tenho medo de todo o meu esforço ser em vão. Fico assombrada com a ideia de virar noites fazendo trabalhos e no fim isso não valer a pena. Acho que nunca fui tão organizada e eficiente, mas me sinto muito cansada.


E me sinto adulta.

E isso, como quase tudo em mim, me assusta.





(Faz cerca de uma semana e meia que eu não toco em um livro e isso é quase como uma úlcera para mim) (além daquela que eu já tenho no meu estômago, quero dizer)


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Cansei


Quero férias de mim; quero férias do mundo.

Quero ser uma árvore, mas não quero mais ser eu.











Hoje eu quis que certas pessoas morressem - quis de verdade, quase pedindo, quase implorando para que elas morressem - e isso assusta.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Quando sentir se torna um problema.


 
As palavras ficaram um tempo longe de mim. Talvez não tenham nem sido elas, talvez tenham sido apenas os pensamentos - aqueles que eu costumava registrar para que me dessem um descanso. Pois bem, parei de querer me livrar deles e então, deliberadamente, eles me deixaram. Tentei por vezes sentar e escrever sobre outras coisas que me passavam pela cabeça, mas parece que aqueles, os pensamentos que me faziam escrever, seriam minha companhia por um tempo limitado. Parece que eles tinham um prazo para me deixarem. Enquanto aquela ausência fosse tão forte, enquanto eu não pudesse suportá-la e enquanto ela ameaçasse me tomar, aqueles pensamentos estariam junto comigo. Não é que eles me dessem força; eles apenas... me mantinham ocupada.

Esses pensamentos eram tristes, eu sei, mas de certa forma eu sinto falta deles. Além de existir uma parte de mim que gosta um pouco de ser triste, eu estava acostumada a pensar daquela forma e comecei a me sentir confortável com isso. Quando me surgia aquela forma de pensar, era como se eu estivesse sendo visitada por uma velha conhecida minha. E então eu assisti à partida de cada um desses meus velhos conhecidos e percebi que o que tinha restado da ausência que eles encobriam era bem pouco e eu podia lidar com esse tanto.

Admito que sinto certo desconforto em ter tanto de mim orbitando em volta da (in)existência de alguém, mas acho que sempre fui assim. Sempre precisei de um ponto de apoio, uma âncora, um farol, ou qualquer sinônimo que posso dar a alguém que pudesse fazer eu me sentir menos perdida, mais segura. Queria poder dizer que sou auto-suficiente; sempre admirei mulheres que dizem se bastarem, que elas não precisam da companhia de ninguém além da própria. Mas não posso.

Eu podia me confortar pensando que nasci incompleta e que por isso existe essa falta, esse vazio que me incomoda. Só que não é isso. Se fosse por ter nascido incompleta, eu teria de encontrar a parte faltante em mim mesma. Deixei de lado a teoria da metade da laranja e percebi que eu quero mesmo alguém por inteiro porque eu percebi que eu me dou por inteiro. Levei um bom tempo para notar que eu era assim, até que um dia desses me veio a revelação; posso dizer que foi quase como uma das epifanias da Clarice, que eu tanto amo: estava eu lendo um livro que pegara emprestado de uma amiga, no qual a personagem se auto-descrevia como alguém que nunca precisou lidar com a solidão porque nunca se sentiu verdadeiramente sozinha. Ela conta que desde a adolescência, ela sempre esteve de alguma forma conectada a algum garoto ou homem e que ela tem problemas de limites com eles. A esta altura da leitura eu quase podia ouvir minha voz dizendo a mim mesma ‘Opa, peraí, eu sou assim!’.

A personagem então expõe o seu problema e foi como se eu estivesse vendo um espelho que refletia minha forma de agir: “Para ter problemas com limites, é preciso primeiro ter limites, certo? Mas eu sou inteiramente tragada pela pessoa que amo. Sou como uma membrana permeável. Se eu amo você, eu lhe dou tudo que tenho. Dou-lhe o meu tempo, a minha dedicação, a minha bunda, o meu dinheiro, a minha família, o meu cachorro, o dinheiro do meu cachorro, o tempo do meu cachorro – tudo. Se eu amo você, carregarei para você toda a sua dor, assumirei por você todas as suas dívidas (em todos os sentidos da palavra), protegerei você da sua própria insegurança, projetarei em você todo tipo de qualidade que você na verdade nunca cultivou em si mesmo[...]”

E foi aí que eu percebi que a minha forma de agir com relação à outra pessoa ainda tinha um agravante: eu sou orgulhosa e finjo que tudo o que eu faço não é por amor. Claro que não é. É por carinho, por gratidão, porque eu te adoro, porque você é importante para mim. Não, eu absolutamente não te amo. Eu costumava achar que eu agia assim para evitar maiores sentimentos, mas não – é orgulho, puro e simples. E é assim que eu vou perdendo as pessoas. Ou eu sou excessiva, ou eu faço parecer que o que sinto é menor do que parece (e eu sou tão boa nisso que as pessoas realmente acreditam; ou eu pelo menos eu acho que acreditam).

E enquanto escrevo isso eu me pergunto se o problema todo não reside no fato de eu tentar me entender, eu que sou tão complicada e esquisita. Eu que queria compreender porque agora estou sozinha, mas que também não queria compreender. Eu que queria voltar no tempo e prestar mais atenção em todas as minhas ações, mas ao mesmo tempo não queria. Eu que queria ter sido menos orgulhosa, mas que também não queria. Eu que queria ter sido mais carinhosa, mas ao mesmo tempo não queria. Eu que acordei hoje achando esse mundo pior e mais injusto do que o normal - eu que nem fui vítima de nenhuma injustiça – eu  que tinha acabado de me acordar.

Eu vi o céu azul e não gostei; eu levantei minha cabeça e doeu; eu tentei fazer o que tinha para fazer e não fiz. E então eles vieram: os pensamentos. Aquela tristeza e aquela agonia pedindo minha atenção.

A verdade é que há tempos não era assim.

É que quando a dor e a saudade me deixaram em paz, eu comecei a sentir nada e sentir nada é incômodo. Na falta de mim mesma, eu finalmente senti desespero. Eu queria loucamente sentir algo novamente – algo que não fosse essa angústia de não sentir nada. Eu queria viver de novo, mesmo que doesse. Eu preferia sentir dor a sentir nada.

E eu consegui.

O problema é que agora estou com medo, muito medo de me machucar novamente. A idéia de eu ter me colocado em algo que me põe em risco é perturbadora e parece que todo dia tenho pelo menos três descargas de adrenalina só de pensar que se tudo acabar mal, a dor vai ser bem maior do que na última vez.

Apesar disso, todo dia sou tomada por uma ansiedade que faz meu estômago dar cambalhotas e parece que se eu quiser, se eu quiser mesmo, sou capaz de saltar de mim mesma e viver tudo isso com uma intensidade e uma alegria duas vezes maior do que a que efetivamente sinto.

Só que, no fim do dia, sou só eu. No fim do dia eu estou sozinha e eu sou um perigo para mim mesma.No fim de todo dia eu vejo que pude sentir tudo o que há de bom para se sentir, mas que todas as sensações boas se restringem a poucos momentos que eu nem posso dizer que são reais. Ou pelo menos não posso dizer que são momentos que eu deva levar a sério. E essa espera por uma possível tristeza me traz uma agonia com a qual eu não sei lidar.

No fim do dia eu acabo me perguntando se não era melhor quando eu não sentia nada.

E aí eu percebo que é melhor eu desistir de tentar me entender.



"I think I'll get outta here where I can Run as fast as I can To the middle of nowhere To the middle of my frustrated fears" (Just Like a Pill - Pink)


domingo, 29 de agosto de 2010

Eu sei que é Assim.


 
Sou tão lógica. Começo tudo já pensando em um fim. Previsível como a morte. E a lógica é cansativa porque se explica e porque explica as coisas. A lógica é incontestável, irrefutável.
É por isso que estou tão desacreditada – porque sou lógica. Vejo os fins de cada início porque conheço os caminhos. Sei para onde o desenrolar das coisas vai me levar então tenho consciência de que boa parte dos passos que darei não me levarão a lugar nenhum. Tudo sempre se repete. Sempre.
Há dias em que decido desafiar a lógica, provar que ela não existe, que é possível tomar um rumo que me leve a um final diferente e ainda assim aceitável, correto, exato. Nunca saio vencedora.
Um dia desses – que contrariando a rotina e a normalidade das coisas, estava se mostrando excepcionalmente feliz - tentei fazer as coisas não se repetirem. Fui impulsiva, algo que não sou - talvez um novo começo me ajudasse na empreitada por um novo fim. Tomei coragem, esqueci que não estava tão apresentável quanto gostaria e digitei alguns números em meu celular. Ouvi a voz do outro lado. Contente e convidativa. Respirei fundo duas vezes. Uma nunca é suficiente.
Precisei de um espelho. Enquanto me olhava, lembrei que estou para comprar um espelho de bolso há um bom tempo. Lembrei que há um bom tempo tenho pensado em comprar algumas coisas e que até tenho dinheiro, mas que nunca as compro. Lembro que tenho motivos para isso, que vou viajar e que preciso economizar meu parco salário, mas a justificativa parece falha. Percebo que essa é minha forma de agir, que sempre foi e que ela se repete. Eu me repito. Eu sou um ciclo. Eu sou lógica, tão lógica.
Inspirei mais duas vezes e cruzei a porta. Desde que comecei a tropeçar em meus próprios pés, acho que um obstáculo invisível se materializará em minha frente no exato momento em que eu for dar meu próximo passo. Olho em volta e fico com medo das paredes. Em corredores, sempre sinto gosto de medo. Não sei ao certo o que me amedronta: se meus próprios pés ou a possibilidade de haver os pés de outro alguém atrás de mim. Quis correr. Quis fugir. De mim.
Eu sabia que era errado, eu sabia que deveria seguir o caminho contrário, o caminho mais seguro, o caminho no qual a minha própria companhia não fosse me atormentar já que pessoas melhores que eu me ajudariam a pensar que ainda valia a pena seguir desse mesmo jeito, que nem tudo é tão ruim, que eu não sou tão ruim. Mas eu escolhi o lado errado. É típico de mim preferir a alternativa incorreta, só não é comum eu insistir nisso até o fim. Essa minha busca pelo inexato, pelo imperfeito, vem de longa data disfarçada sob o apelido de vida exemplar.
Vida vazia, mas exemplar. Vida cheia do que querem e não do que se quer. Tem de ser assim, tem de se chegar a algum lugar, o lugar certo, aquele que vale a pena, aquele que vai te levar a algum lugar. No fim vai valer a pena, pode acreditar.
Não. Não posso acreditar, não consigo acreditar.
Cada ação tem um fim, cada minuto tem um fim e no fim da maioria deles eu não sinto como se valesse a pena. Eu precisava tentar. Eu precisava de uns minutos que valessem.
Quando acabou o corredor e eu virei à direita, sabia que não tinha mais volta. Mais um passos e eu estava em frente à porta de vidro. Minha mão se ergueu em um cumprimento desajeitado e ele veio em minha direção. Ele sorria.
Senti o calor de seu abraço por uns dois segundos. O cheiro da pele dele ficou entranhado em mim; parecia me rasgar por dentro, gravando-se em cada pedaço que percebesse ser mais vulnerável. Quando me soltou, senti-me pequena e indefesa. Eu sou frágil, quis avisar. Quis berrar que eu era quebrável. Eu não sou o que essa cara distorcida em um sorriso faz parecer. Essa segurança com meus dentes se mostram não é real. Me enxerga, por favor. Vê como eu estou estraçalhada por dentro. Percebe que se não estou em suas mãos é porque sei que teu aperto pode ser forte demais e eu posso não resistir.
“Tinha me esquecido de como tu eras grande.” Foi essa a minha forma de dizer que meu medo era muito maior que eu.
Ele não percebe. Ele só ri.  “Saudades de ti. Séculos que não te vejo. Como tu estás?”, ele diz. “É verdade, eu digo. Estou bem... na correria de sempre, não é?”, eu respondo, pedindo por dentro que ele me tirasse dessa agonia e fizesse meu dia continuar a ser excepcionalmente bom; queria dizer a ele o quanto eu precisava disso.  “Nem me fale em correria. Minha vida está assim também.”
Fiquei com pena. Perguntei-me se por dentro ele se sentia como eu e foi horrível ver que os olhos dele não tinham o mesmo sorriso que sua boca. E foi quando ele me perguntou “Vamos embora comigo?” e eu não pude dizer não. Eu não queria e eu não podia dizer que não. Eu tinha passado por cima de mim mesma para estar ali. E se isso era lógico demais e contradizia meu objetivo, eu pelo menos podia pensar o quanto era ilógico e irracional que eu já quisesse ir com ele antes de ele ao menos me perguntar. Porque eu precisava ser egoísta dessa vez. As coisas tinham de ser diferentes e eu tinha de ser egoísta. Deixei-o sozinho por um tempo e voltei a passos largos para onde estavam minhas amigas. Falei de algo banal e disse que iria embora com ele. Ouvir-me falando isso facilitava as coisas de uma forma que eu não podia explicar.
Refiz o mesmo caminho pela terceira vez; mas na última fechei os olhos. Eu já tinha ido longe para ter medo de mim – ou pelo menos lembrar que tinha. Quando subimos o elevador e chegamos ao seu carro, eu percebi o quanto eu tremia. Ele facilitou as coisas falando sobre assuntos que me davam alegria: crianças; amigos; praia. Eu já conseguia respirar melhor quando depois de dez metros ele segurou minha mão e então levou-a a seus lábios e beijou. “Estava com saudades de ti”. Eu não sabia o que fazer. Eu nunca sei. Eu queria me esconder porque não era assim. Nunca era assim. E eu percebi como eu tinha medo de que as coisas fossem diferentes do que eu conheço. Murmurei um “Eu também” enquanto eu olhava para fora da janela. Aí veio o semáforo e ele se virou para mim e beijou meu rosto e passeou por ele até chegar à minha boca. Isso era o convencional; era assim que as coisas aconteciam; a isso eu estava acostumada. Foi igual nos dois semáforos seguintes. Havia pedaços de conversa, mas eram poucos. Eu estava sendo levada para longe de meu objetivo e eu sabia disso, mas a idéia de que eu também era capaz de estar com alguém por quem eu não nutrisse sentimentos era muito boa para que eu tentasse fugir de toda a situação em que me meti.
Um esclarecimento: há pouco tempo eu vivi um fim, como todos os outros, em que a pessoa com quem eu estive acabou preferindo a outro alguém. A troca foi tão fácil que não consigo acreditar que ele nutrisse sentimentos por ela e eu acreditava que eu não fosse capaz de viver algo assim. Pois bem, estava provando que eu era.
Perguntei se ele tinha alguém. “Algo assim”, disse. Contei-lhe minha história. Senti-me mais leve. Então ele começou o discurso tão conhecido de ser novo demais, de não querer nada sério, de querer aproveitar a vida. Parece que para todos existe uma incompatibilidade entre compromisso e “aproveitar a vida”, menos para mim. Depois de terminar seu monólogo, concordei com suas palavras, como de praxe. Pensei em discordar, em tentar reverter a situação, fazer as coisas serem diferentes, mas declarei a batalha como perdida. Percebi que ele seria um punhado de minutos bons, talvez horas – não sabia quanto tempo passaríamos naquele carro. Era bom que eu tivesse essa coleção de momentos felizes; apesar de estarem em menor número do que minhas dores, sempre fizeram um bom trabalho apaziguando-as.
Muitos me perguntam por que eu me contento com isso, porque me satisfaço com tão pouco. Eu poderia responder isso com inúmeras verdades que as pessoas costumam contestar, como por exemplo: não tenho alternativa ou é sempre desse jeito, mas a verdade é que é tudo lógico – sendo eu e eles o começo, creio que o fim será sempre o mesmo. Como eu disse, tenho tentado me convencer do contrário, mas nunca dá certo. Mudei meus padrões, diminuí minhas expectativas, fui a novos lugares, conheci novas pessoas, mas tudo se repete e o fim é sempre o mesmo. Não quero ouvir “Você é linda” porque sei o quão falsa é essa casca que cobre quem eu sou, porque eu sei que posso moldar minha aparência a ponto de ser quem eu quiser quando por dentro estou desmoronando. Ele me disse que eu era linda. Ele também é lindo, mas que diferença isso faz? O outro, o de antes, também era lindo. Já houve os que não eram lindos e o final foi o mesmo. O final nunca foi lindo. Não para mim. Eu queria um final bonito; não precisava ser lindo, só... bonito.
Continuamos no carro por cerca de uma hora. Ele me beijava como se eu fosse sua vida e ele estivesse prestes a perdê-la e eu cheguei a cogitar a idéia de que não era eu que ele estava beijando. Quando ele começou a forçar meus limites, eu percebi que era a mim que ele estava beijando – mais um ciclo, mais uma coisa que se repete. A lógica se fez presente em toda essa uma hora e eu já via que ia acabar tudo como sempre.
O controverso de tudo isso foi quando eu disse que seria muito bom se ele prestasse, se ele valesse a pena. Sua resposta foi: Eu cuidaria de ti.
Acabou igual: em algum dos dias seguintes ele saiu com a garota que ele denominava como “algo assim”.
Dessa vez, porém, talvez por eu saber qual era o mais provável fim, eu não sofri. Talvez porque eu tenha mesmo contrariado a lógica e tenha, dessa vez, vivido o outro lado – a pessoa que usa alguém para se afirmar, em vez de ser usada em prol da auto-afirmação de alguém. Talvez porque eu tenha percebido que não há como eu fugir da ordem das coisas. Talvez porque eu tenha me conformado, como muitos dizem.
Não sei. Realmente não sei. Só sei que estou cansada deles. De todos eles.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Seção Séries

Minha Preferida: The Tudors


A série The Tudors se passa no século XVI e tem como cenário a Inglaterra governada pelo conhecido tirano Henrique VIII – o segundo monarca da dinastia Tudor. A série, criada por Michael Hirst, foca-se principalmente na conturbada vida amorosa do rei e seus seis casamentos. Em quatro temporadas, são contadas as histórias de Catarina de Aragão, Ana Bolena, Jane Seymour, Ana de Cleves, Catarina Howard e Catarina Parr – tendo duas delas sido ‘vítimas’ de divórcio e outras duas decaptadas.
O seriado mostra as intrigas da corte e como a religião permeia praticamente todas as relações daquele tempo. Nas duas primeiras temporadas, a ruptura da Inglaterra com a Igreja Católica teve bastante destaque, uma vez que o casamento do rei com Ana Bolena foi o principal desencadeador da crise entre o país e a instituição religiosa. A terceira temporada também trata seriamente sobre a nova igreja da Inglaterra – o anglicanismo – e as rebeliões contra a política de Thomas Cromwell, o braço direito do rei que conta com tantos títulos que sou incapaz de nomeá-los. Na quarta temporada as divergências entre católicos e protestantes continuam, mas ficam, de certa forma, em segundo plano.
 Em minha opinião, as duas primeiras temporadas são as melhores. Além de a corte ter uma atmosfera diferente por serem os primeiros anos de reinado de Henrique, o romance entre Ana Bolena e o rei é instigante, misterioso, te deixa querendo saber qual vai ser o próximo passo dos dois amantes. Além disso, Ana é uma mulher inteligentíssima, astuta e muito à frente de sua época (para mim, isso é óbvio pelo simples fato de ter conseguido fazer um rei posicionar-se contra o Patronato Régio – ir contra a sua igreja).
As temporadas seguintes não foram tão fascinantes. A conduta das outras esposas não me cativou - Jane Seymour era a submissão em pessoa; Ana de Cleves, o medo; Catarina Howard, a frivolidade; e Catarina Parr, a seriedade. É claro que todas elas tiveram seus feitos e contribuíram para a história à sua maneira, entretanto, elas não brilharam tanto quanto Ana Bolena e Catarina de Aragão. 
Ainda assim, The Tudors é minha série favorita e fico um pouco chateada quando a classificam como pornô histórico. O enredo é bastante forte e presente em todos os episódios. Há várias cenas de nudez e de sexo, sim; entretanto, elas não prejudicam em nada o desenvolvimento da história em si. Além disso, é sabido que naquela época as pessoas eram dadas a encontros às escondidas e que as traições eram comuns. Acredito que quem tem verdadeiro interesse pelo assunto entende que essas cenas ou fazem parte do contexto apresentado, ou acrescentam à série uma sensualidade admirável.
Sou apaixonada pela história da Inglaterra e acho que o conteúdo histórico foi retratado com bastante seriedade pelos roteiristas. Há, sim, erros que poderiam ser contornados – como, por exemplo, o casamento  secreto de Charles Brandon com Margareth Tudor. Charles casou-se na verdade com Mary Tudor, a outra irmã do Rei. O casamento foi, de fato, secreto e aconteceu após o breve casamento de Mary com o Rei Luís XII, da França, quando Charles foi negociar a volta da irmã de Henrique VIII para a Inlgaterra -  e estou ciente de boa parte deles, mas creio que deve-se valorizar a forma com que a equipe de produção reproduziu os acontecimentos e os costumes de uma época. Aprendi muito com esse seriado e desejei do fundo da minha alma que houvesse temporadas sobre os governos dos herdeiros de Henrique VIII.  Infelizmente, não há previsão para novas temporadas então me contento com filmes e livros que contam sobre Eduardo, Maria e Elizabeth. Outro dia indico alguns por aqui.


Observação: Há muito material disponível na internet sobre a casa de Tudor e os governantes dessa dinastia. Procurem sempre por sites ou blogs que exponham fontes e busquem por elas caso a internet não seja suficiente. Na comunidade da série no Orkut, há muitas pessoas legais que se dedicam a pesquisas sobre o assunto e estão dispostas a tirar dúvidas ou indicar bibliografias. Não sei vocês, mas eu tenho certo vício por saber cada vez mais sobre os assuntos que gosto. No meu Tumblr, há imagens e informações sobre Ana Bolena e Henrique VIII, além de screencaps da série. Elas estão meio espalhadas entre os outros posts, mas se alguém tiver interesse, é só me avisar, pois eu posso filtrá-las.

Links para Download: http://serieshunter.com/tag/the-tudors/ (Boa parte dos episódios eu baixei neste site). Caso algum link não esteja funcionando, há links disponíveis na comunidade do Orkut aqui.

domingo, 15 de agosto de 2010

As estrelas

Quando estou triste escrevo melhor.
Não. Não melhor:  mais facilmente. As palavras vão escorrendo por meus dedos até que eu as percebo em minha frente.
Faz poucos dias eu pensei sobre o céu, pensei sobre estrelas e sobre coisas e pessoas brilhantes como elas – quis escrever sobre isso. Todo dia ao acordar eu olho pra abóboda celeste e vejo sua cor. O azul sempre me incomoda. Houve uma época em que eu sorria ao sentir o sol me tocar a pele e me espiar de toda aquela distância, até que eu descobri que eu preferia que as nuvens me seguissem e me vigiassem. 
Cansei do calor do sol. Quero pedaços de algodão todo dia, pincelando o céu de branco e cinza.
Da noite eu gosto. O azul escuro e o negro trazidos pela lua me satisfazem e os pontinhos brilhantes de estrela me comovem. Vejo cada estrela como uma amiga em potencial e um pedido em especial. Não, não me julguem interesseira. É só que cresci pensando que quando eu me fosse desse mundo eu viraria aquele brilho pontual e a idéia de que um dia me apontariam como algo bom de ser visto é de meu agrado. Não sou grotesca, mas há quem desvie o olhar quando minha presença se faz notar.
Minha presença existe em vários lugares, mas sou tão imprecisa que às vezes nem eu sei onde estou e quando estou me sinto tão sozinha que preferia não estar. Vivo fingindo que pertenço a algum lugar, e consigo me enganar; mas então vem a noite e quando só tenho as estrelas, percebo que somos só eu e o céu. Aí sinto o buraco do vazio de novo - aquele velho conhecido – e o peso dele que junto ao meu peso, faz eu me cansar só de pensar no que tenho que carregar todos os dias.
Ontem eu caí. Escorreguei e me estatelei no chão. Eu estava de vestido e meio fora de mim porque o álcool ontem não quis ser meu amigo – quis lutar contra mim. Eu caí e senti que era pesada. Se o álcool estivesse meu amigo, eu nem teria sentido a dor do tombo e só perceberia meu peso hoje pela manhã quando vi a mancha roxa em meu joelho.
O fato é que doeu e eu nem vi o céu ontem - e isso é algo que me incomoda. Quando eu caí e me ergui consegui rir ao ouvir uma piada por perto de onde eu estava. E então olhei para frente e vi alguém a acenar-me um adeus. E foi um adeus tão real e tão ridículo que eu quis rir e eu ri em meio ao gosto salgado das lágrimas que eu já vinha derramando. Eu quis ser uma estrela. As estrelas quando choram deixam lágrimas brilhantes e bonitas de serem vistas.  
E quando as estrelas caem, elas concedem desejos às pessoas. Talvez nisso eu seja uma estrela: quando eu caio e me machuco, há quem se satisfaça por ter o seu desejo atendido. Ontem quando caí e meu joelho doeu, meu coração também gritou. A agonia foi tanta que se eu fosse estrela eu teria me apagado. Tenho todos os motivos para ir para o céu, só preciso de uma condução porque não sei que rumo tomar.
E ontem eu não vi o céu. Eu não vi se ele tinha algum brilho.
Por que isso me incomoda tanto?
Eu te digo por quê: Porque viver um adeus sem cenário é asséptico para mim. É simplesmente cruzar por um porta ao final de um corredor branco e limpo só porque sobre ela há uma placa que indica a saída. Quando eu fechei a porta eu acho que percebi que eu tinha deixado o céu do lado de fora.
E acho que ainda não me acostumei com essa escuridão aqui dentro. Nunca gostei da claridade, mas tinha me esquecido de como é a escuridão. Tatear o vazio é difícil e admito que preciso de algum apoio.
Percebi também que meu joelho e meu orgulho agora são amigos – acho que é porque os dois estão feridos. Quando eu caí e me expus toda, ouvi meu orgulho rasgar. Será que era sobre isso a piada que me fez rir? Pois bem, saibam que rir não é o melhor remédio. Ainda dói e sangra e nem que passassem o dia me fazendo cócegas eu estaria curada.
Às vezes me canso de pensar. As imagens e sons passam pela minha cabeça e me afligem. Eu tento fugir delas e colocar dentro da minha caixa craniana a escuridão que tenho em volta, mas ela não entra. Meus pensamentos gostam de ser coloridos e vívidos como o céu azul – acho que talvez por isso me incomodem.
Quando eu vejo tudo escuro eu me imagino sendo bem vinda em algum lugar e por alguém especial. Alguém que me recebe em um colchão de estrelas e me aponta o céu sem medo de ganhar uma verruga por minha causa – tenho certeza que as estrelas brilham mais quando são apontadas em meio à luz de todas as outras e porque estou magoada, não quero tentar entender quem pensa diferente disso; só quero ter esse alguém que acredite no mesmo que eu.
Contei para uma estrela que estou sendo levada pela correnteza. Não cheguei a comentar que eu achava que na escuridão do fundo eu estaria protegida de me levarem, mas eu pensei. Não sei qual é meu ponto final, mas eu tenho certeza que me levam para longe de onde eu queria estar.
Sei também que continuar abaixo da superfície só me deixa mais longe do céu, além de não me proteger de nada. Penso que sei que no fim me levarão para um lugar em terra ou para abaixo dela então não me esforço para sair daqui.
Posso parecer mórbida, mas é que não nasci para brilhar. A mesma treva que me assusta, tem me acolhido de tempos em tempos, então só me despedirei dela quando conseguir superar esse apego que crio pelas coisas.
Quando isso acontecer, espero que o cenário seja um céu estrelado.

domingo, 8 de agosto de 2010

O vazio

O vazio é pesado.
Ontem me senti um saco vazio. Tive que tirar tudo o que eu tinha em mim e no fim eu era um vazio pesado e precisava me carregar.
Cansei.
Dos meus olhos brotavam aquela angústia molhada que buscava nada senão me preencher de novo com aquilo que não era mais meu. Despedir-se dói. Adeus, lembranças, até mais ver! E aí a lacuna. Parece que mergulhei no poço.
É.
Parece que eu me joguei em um buraco e ele era vazio e vazia também era eu. E no vazio do meu vazio e no vazio do poço eu sentia o peso daquela ausência.
Não é cruel que eu tente me livrar da minha ausência me esvaziando do pouco que me resta naquela água boba que rasga meu rosto? Como posso me esvaziar ainda mais se é o vazio que me pesa? E já estou tão cheia do vazio. Não quero preencher-me mais com ele.
Quero de volta o que deixei.
Quero de volta meu eu; o que eu era; o que eu fui; o que sinto falta de ser. Quero de volta os instantes e viver e provar e sentir e fazer tudo de novo. Não me importaria de viver em um ciclo. Não me importaria de ter sempre o mesmo começo e o mesmo fim, desde que eu revivesse aqueles ‘meios’ que se foram.
Li em algum lugar que a vida se repete.
E vejo que a minha se repete, mas não no que eu quero e meu querer parece errado porque tudo parece bem, tudo parece tão bem.
Parece.
Eu me procuro em mim e não me acho. Mergulhada no vazio, vejo vários obstáculos e uma lacuna. O vazio me abre um caminho que eu não sei se quero seguir.  
Parece que falta um pedaço de mim e que o que restou não me agrada.
E aí eu tive que escolher: ou me encolhia toda esperando ser esmagada pelo peso do que não existia mais ou fugia daquele vazio tentando me preencher de uma alegria que não existe mas que eu podia criar.
Posso estar alegre por esticar meus músculos depois de ter estado tão encolhida e me espreguiçar, fingindo que todo o medo de dois segundos atrás me entediava em vez de me assustar.
Posso estar alegre de ver que tenho luz no caminho da tal lacuna, em vez daquela escuridão do fundo do poço.
Se bem que gosto do escuro. Eu e a claridade não nos damos bem. O céu azul me dói os olhos, me ofusca a vista, não me deixa enxergar. Se eu enxergo no escuro?
Enxergo, sim. Todo mundo enxerga. E é a melhor forma de enxergar: o susto da cegueira inicial e a posterior descoberta de que tudo continua ali, no mesmo lugar. Finjo que as coisas se esconderam, mas que sentiram falta de mim e por isso voltaram. É bobo, eu sei, mas gosto de pensar que posso perder as coisas em um momento e recuperá-las num átimo – para variar.
Então foi isso.
Apaguei a luz e, quando meus olhos se acostumaram, tudo tinha ido - mas nada do que eu via antes voltou. E eu rio de mim, porque fui cega de amor e me deram de volta a visão e eu sinto que saí perdendo. Porque eu agora enxergo o amor e eu vejo que ele não está comigo e quando eu não o via eu o sentia do meu lado.
E porque quando eu o sentia, eu nunca estava completa, mas pelo menos eu estava preenchida. Porque por mais que eu estivesse cheia pela metade, eu não estava vazia. Porque a minha cegueira me doía, mas me doía menos do que me dói essa falta de qualquer coisa. Porque o incompleto é melhor do que o nada. Porque se eu não tinha o alguém eu tinha ao menos o amor. Porque se eu não tinha o amor, eu tinha pelo menos os cenários do que tinha sido um quase amor... e as lembranças do que tinha sido uma sucessão de dias felizes.
Agora eu não tenho os cenários. Agora eu apaguei as lembranças. Agora eu tenho o quase-amor e o que restou de uma quase-saudade.
A quase-saudade eu criei para que eu não desse também um adeus à falta que sinto de ti. Quando me esvaziei inteira eu pensei que pudesse te virar as costas me virar do avesso e dar oi a um novo eu, vazio de qualquer coisa que me doesse. Eu estou oca e isso me cansa. Mas  apesar de isso me cansar, não me dói porque sei que no vazio eu escondo uma falta que é de ti e se eu tenho uma falta é porque tive uma presença – que era a tua.
E quando eu tomei ar e andei pela lacuna em minha frente, percebi que o cansaço do vazio era pouco pra mim... eu que vivo cansada. E a água que brotava dos meus olhos eu percebi que matava minha sede.
Porque até no vazio, o quase-tu que tive vai me dar forças e eu vou ser o quase-eu que pretendo ser sem ti.


Ontem coloquei à venda minha casa de praia.
Acho que nunca vou amar um lugar como amei aquele.
Acho que nunca mais vou amar em um lugar como aquele.