Sou tão lógica. Começo tudo já pensando em um fim. Previsível como a morte. E a lógica é cansativa porque se explica e porque explica as coisas. A lógica é incontestável, irrefutável.
É por isso que estou tão desacreditada – porque sou lógica. Vejo os fins de cada início porque conheço os caminhos. Sei para onde o desenrolar das coisas vai me levar então tenho consciência de que boa parte dos passos que darei não me levarão a lugar nenhum. Tudo sempre se repete. Sempre.
Há dias em que decido desafiar a lógica, provar que ela não existe, que é possível tomar um rumo que me leve a um final diferente e ainda assim aceitável, correto, exato. Nunca saio vencedora.
Um dia desses – que contrariando a rotina e a normalidade das coisas, estava se mostrando excepcionalmente feliz - tentei fazer as coisas não se repetirem. Fui impulsiva, algo que não sou - talvez um novo começo me ajudasse na empreitada por um novo fim. Tomei coragem, esqueci que não estava tão apresentável quanto gostaria e digitei alguns números em meu celular. Ouvi a voz do outro lado. Contente e convidativa. Respirei fundo duas vezes. Uma nunca é suficiente.
Precisei de um espelho. Enquanto me olhava, lembrei que estou para comprar um espelho de bolso há um bom tempo. Lembrei que há um bom tempo tenho pensado em comprar algumas coisas e que até tenho dinheiro, mas que nunca as compro. Lembro que tenho motivos para isso, que vou viajar e que preciso economizar meu parco salário, mas a justificativa parece falha. Percebo que essa é minha forma de agir, que sempre foi e que ela se repete. Eu me repito. Eu sou um ciclo. Eu sou lógica, tão lógica.
Inspirei mais duas vezes e cruzei a porta. Desde que comecei a tropeçar em meus próprios pés, acho que um obstáculo invisível se materializará em minha frente no exato momento em que eu for dar meu próximo passo. Olho em volta e fico com medo das paredes. Em corredores, sempre sinto gosto de medo. Não sei ao certo o que me amedronta: se meus próprios pés ou a possibilidade de haver os pés de outro alguém atrás de mim. Quis correr. Quis fugir. De mim.
Eu sabia que era errado, eu sabia que deveria seguir o caminho contrário, o caminho mais seguro, o caminho no qual a minha própria companhia não fosse me atormentar já que pessoas melhores que eu me ajudariam a pensar que ainda valia a pena seguir desse mesmo jeito, que nem tudo é tão ruim, que eu não sou tão ruim. Mas eu escolhi o lado errado. É típico de mim preferir a alternativa incorreta, só não é comum eu insistir nisso até o fim. Essa minha busca pelo inexato, pelo imperfeito, vem de longa data disfarçada sob o apelido de vida exemplar.
Vida vazia, mas exemplar. Vida cheia do que querem e não do que se quer. Tem de ser assim, tem de se chegar a algum lugar, o lugar certo, aquele que vale a pena, aquele que vai te levar a algum lugar. No fim vai valer a pena, pode acreditar.
Não. Não posso acreditar, não consigo acreditar.
Cada ação tem um fim, cada minuto tem um fim e no fim da maioria deles eu não sinto como se valesse a pena. Eu precisava tentar. Eu precisava de uns minutos que valessem.
Quando acabou o corredor e eu virei à direita, sabia que não tinha mais volta. Mais um passos e eu estava em frente à porta de vidro. Minha mão se ergueu em um cumprimento desajeitado e ele veio em minha direção. Ele sorria.
Senti o calor de seu abraço por uns dois segundos. O cheiro da pele dele ficou entranhado em mim; parecia me rasgar por dentro, gravando-se em cada pedaço que percebesse ser mais vulnerável. Quando me soltou, senti-me pequena e indefesa. Eu sou frágil, quis avisar. Quis berrar que eu era quebrável. Eu não sou o que essa cara distorcida em um sorriso faz parecer. Essa segurança com meus dentes se mostram não é real. Me enxerga, por favor. Vê como eu estou estraçalhada por dentro. Percebe que se não estou em suas mãos é porque sei que teu aperto pode ser forte demais e eu posso não resistir.
“Tinha me esquecido de como tu eras grande.” Foi essa a minha forma de dizer que meu medo era muito maior que eu.
Ele não percebe. Ele só ri. “Saudades de ti. Séculos que não te vejo. Como tu estás?”, ele diz. “É verdade, eu digo. Estou bem... na correria de sempre, não é?”, eu respondo, pedindo por dentro que ele me tirasse dessa agonia e fizesse meu dia continuar a ser excepcionalmente bom; queria dizer a ele o quanto eu precisava disso. “Nem me fale em correria. Minha vida está assim também.”
Fiquei com pena. Perguntei-me se por dentro ele se sentia como eu e foi horrível ver que os olhos dele não tinham o mesmo sorriso que sua boca. E foi quando ele me perguntou “Vamos embora comigo?” e eu não pude dizer não. Eu não queria e eu não podia dizer que não. Eu tinha passado por cima de mim mesma para estar ali. E se isso era lógico demais e contradizia meu objetivo, eu pelo menos podia pensar o quanto era ilógico e irracional que eu já quisesse ir com ele antes de ele ao menos me perguntar. Porque eu precisava ser egoísta dessa vez. As coisas tinham de ser diferentes e eu tinha de ser egoísta. Deixei-o sozinho por um tempo e voltei a passos largos para onde estavam minhas amigas. Falei de algo banal e disse que iria embora com ele. Ouvir-me falando isso facilitava as coisas de uma forma que eu não podia explicar.
Fiquei com pena. Perguntei-me se por dentro ele se sentia como eu e foi horrível ver que os olhos dele não tinham o mesmo sorriso que sua boca. E foi quando ele me perguntou “Vamos embora comigo?” e eu não pude dizer não. Eu não queria e eu não podia dizer que não. Eu tinha passado por cima de mim mesma para estar ali. E se isso era lógico demais e contradizia meu objetivo, eu pelo menos podia pensar o quanto era ilógico e irracional que eu já quisesse ir com ele antes de ele ao menos me perguntar. Porque eu precisava ser egoísta dessa vez. As coisas tinham de ser diferentes e eu tinha de ser egoísta. Deixei-o sozinho por um tempo e voltei a passos largos para onde estavam minhas amigas. Falei de algo banal e disse que iria embora com ele. Ouvir-me falando isso facilitava as coisas de uma forma que eu não podia explicar.
Refiz o mesmo caminho pela terceira vez; mas na última fechei os olhos. Eu já tinha ido longe para ter medo de mim – ou pelo menos lembrar que tinha. Quando subimos o elevador e chegamos ao seu carro, eu percebi o quanto eu tremia. Ele facilitou as coisas falando sobre assuntos que me davam alegria: crianças; amigos; praia. Eu já conseguia respirar melhor quando depois de dez metros ele segurou minha mão e então levou-a a seus lábios e beijou. “Estava com saudades de ti”. Eu não sabia o que fazer. Eu nunca sei. Eu queria me esconder porque não era assim. Nunca era assim. E eu percebi como eu tinha medo de que as coisas fossem diferentes do que eu conheço. Murmurei um “Eu também” enquanto eu olhava para fora da janela. Aí veio o semáforo e ele se virou para mim e beijou meu rosto e passeou por ele até chegar à minha boca. Isso era o convencional; era assim que as coisas aconteciam; a isso eu estava acostumada. Foi igual nos dois semáforos seguintes. Havia pedaços de conversa, mas eram poucos. Eu estava sendo levada para longe de meu objetivo e eu sabia disso, mas a idéia de que eu também era capaz de estar com alguém por quem eu não nutrisse sentimentos era muito boa para que eu tentasse fugir de toda a situação em que me meti.
Um esclarecimento: há pouco tempo eu vivi um fim, como todos os outros, em que a pessoa com quem eu estive acabou preferindo a outro alguém. A troca foi tão fácil que não consigo acreditar que ele nutrisse sentimentos por ela e eu acreditava que eu não fosse capaz de viver algo assim. Pois bem, estava provando que eu era.
Perguntei se ele tinha alguém. “Algo assim”, disse. Contei-lhe minha história. Senti-me mais leve. Então ele começou o discurso tão conhecido de ser novo demais, de não querer nada sério, de querer aproveitar a vida. Parece que para todos existe uma incompatibilidade entre compromisso e “aproveitar a vida”, menos para mim. Depois de terminar seu monólogo, concordei com suas palavras, como de praxe. Pensei em discordar, em tentar reverter a situação, fazer as coisas serem diferentes, mas declarei a batalha como perdida. Percebi que ele seria um punhado de minutos bons, talvez horas – não sabia quanto tempo passaríamos naquele carro. Era bom que eu tivesse essa coleção de momentos felizes; apesar de estarem em menor número do que minhas dores, sempre fizeram um bom trabalho apaziguando-as.
Muitos me perguntam por que eu me contento com isso, porque me satisfaço com tão pouco. Eu poderia responder isso com inúmeras verdades que as pessoas costumam contestar, como por exemplo: não tenho alternativa ou é sempre desse jeito, mas a verdade é que é tudo lógico – sendo eu e eles o começo, creio que o fim será sempre o mesmo. Como eu disse, tenho tentado me convencer do contrário, mas nunca dá certo. Mudei meus padrões, diminuí minhas expectativas, fui a novos lugares, conheci novas pessoas, mas tudo se repete e o fim é sempre o mesmo. Não quero ouvir “Você é linda” porque sei o quão falsa é essa casca que cobre quem eu sou, porque eu sei que posso moldar minha aparência a ponto de ser quem eu quiser quando por dentro estou desmoronando. Ele me disse que eu era linda. Ele também é lindo, mas que diferença isso faz? O outro, o de antes, também era lindo. Já houve os que não eram lindos e o final foi o mesmo. O final nunca foi lindo. Não para mim. Eu queria um final bonito; não precisava ser lindo, só... bonito.
Continuamos no carro por cerca de uma hora. Ele me beijava como se eu fosse sua vida e ele estivesse prestes a perdê-la e eu cheguei a cogitar a idéia de que não era eu que ele estava beijando. Quando ele começou a forçar meus limites, eu percebi que era a mim que ele estava beijando – mais um ciclo, mais uma coisa que se repete. A lógica se fez presente em toda essa uma hora e eu já via que ia acabar tudo como sempre.
O controverso de tudo isso foi quando eu disse que seria muito bom se ele prestasse, se ele valesse a pena. Sua resposta foi: Eu cuidaria de ti.
Acabou igual: em algum dos dias seguintes ele saiu com a garota que ele denominava como “algo assim”.
Dessa vez, porém, talvez por eu saber qual era o mais provável fim, eu não sofri. Talvez porque eu tenha mesmo contrariado a lógica e tenha, dessa vez, vivido o outro lado – a pessoa que usa alguém para se afirmar, em vez de ser usada em prol da auto-afirmação de alguém. Talvez porque eu tenha percebido que não há como eu fugir da ordem das coisas. Talvez porque eu tenha me conformado, como muitos dizem.
Não sei. Realmente não sei. Só sei que estou cansada deles. De todos eles.

