"A imaginação se abrasava, impelindo-a para longe da vida que teimava em querer aniquilá-la. Pela manhã, sentia o corpo doído, os nervos formigando à flor da pele, tentando inutilmente amainar a violência do coração." (No exílio, p. 146 - Elisa Lispector)
"- Tudo um sonho apenas, mas um sonho mau, perturbador. Então, a vida é só isto? - prosseguiu. - E para chegar-se a isto, tantas mutilações, tantos anseios frustrados, tanta mentira. - As lágrimas corriam-lhe agora abundantes, que eram lágrimas de revolta." (No exílio, p. 147 - Elisa Lispector)
Achei válido colocar aqui esses trechos do livro que estou lendo, da Elisa Lispector (irmã da Clarice) .
É incrível como essa família consegue com as palavras mostrar o que têm por dentro. O que me admira mais ainda é que quando leio, parece que eu estou lendo uma fotografia de mim mesma.
É bom ler essas literaturas introspectivas/autobiográficas porque além de ver que não sou o único turbilhão de sentimentos confusos que existe no mundo, eu começo a ver que é possível se entender - nem que seja um pouquinho; nem que seja de forma fragmentada; nem que seja para simplesmente saber como eu sou paradoxal todo o tempo.
Pelo menos eu começo a saber um pouco como sou, ou pelo menos achar que sei, e isso é melhor do que viver em uma cegueira de mim mesma, porque, como dizia a irmã caçula da Elisa: "Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação"
sábado, 27 de novembro de 2010
As irmãs Lispector
domingo, 21 de novembro de 2010
Calvin e eu
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segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Um mês até o fim de tudo isso.
Mais que nunca tenho medo de todo o meu esforço ser em vão. Fico assombrada com a ideia de virar noites fazendo trabalhos e no fim isso não valer a pena. Acho que nunca fui tão organizada e eficiente, mas me sinto muito cansada.
E me sinto adulta.
E isso, como quase tudo em mim, me assusta.
(Faz cerca de uma semana e meia que eu não toco em um livro e isso é quase como uma úlcera para mim) (além daquela que eu já tenho no meu estômago, quero dizer)
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Cansei

Quero férias de mim; quero férias do mundo.
Quero ser uma árvore, mas não quero mais ser eu.
Hoje eu quis que certas pessoas morressem - quis de verdade, quase pedindo, quase implorando para que elas morressem - e isso assusta.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Quando sentir se torna um problema.
As palavras ficaram um tempo longe de mim. Talvez não tenham nem sido elas, talvez tenham sido apenas os pensamentos - aqueles que eu costumava registrar para que me dessem um descanso. Pois bem, parei de querer me livrar deles e então, deliberadamente, eles me deixaram. Tentei por vezes sentar e escrever sobre outras coisas que me passavam pela cabeça, mas parece que aqueles, os pensamentos que me faziam escrever, seriam minha companhia por um tempo limitado. Parece que eles tinham um prazo para me deixarem. Enquanto aquela ausência fosse tão forte, enquanto eu não pudesse suportá-la e enquanto ela ameaçasse me tomar, aqueles pensamentos estariam junto comigo. Não é que eles me dessem força; eles apenas... me mantinham ocupada.
Esses pensamentos eram tristes, eu sei, mas de certa forma eu sinto falta deles. Além de existir uma parte de mim que gosta um pouco de ser triste, eu estava acostumada a pensar daquela forma e comecei a me sentir confortável com isso. Quando me surgia aquela forma de pensar, era como se eu estivesse sendo visitada por uma velha conhecida minha. E então eu assisti à partida de cada um desses meus velhos conhecidos e percebi que o que tinha restado da ausência que eles encobriam era bem pouco e eu podia lidar com esse tanto.
Admito que sinto certo desconforto em ter tanto de mim orbitando em volta da (in)existência de alguém, mas acho que sempre fui assim. Sempre precisei de um ponto de apoio, uma âncora, um farol, ou qualquer sinônimo que posso dar a alguém que pudesse fazer eu me sentir menos perdida, mais segura. Queria poder dizer que sou auto-suficiente; sempre admirei mulheres que dizem se bastarem, que elas não precisam da companhia de ninguém além da própria. Mas não posso.
Eu podia me confortar pensando que nasci incompleta e que por isso existe essa falta, esse vazio que me incomoda. Só que não é isso. Se fosse por ter nascido incompleta, eu teria de encontrar a parte faltante em mim mesma. Deixei de lado a teoria da metade da laranja e percebi que eu quero mesmo alguém por inteiro porque eu percebi que eu me dou por inteiro. Levei um bom tempo para notar que eu era assim, até que um dia desses me veio a revelação; posso dizer que foi quase como uma das epifanias da Clarice, que eu tanto amo: estava eu lendo um livro que pegara emprestado de uma amiga, no qual a personagem se auto-descrevia como alguém que nunca precisou lidar com a solidão porque nunca se sentiu verdadeiramente sozinha. Ela conta que desde a adolescência, ela sempre esteve de alguma forma conectada a algum garoto ou homem e que ela tem problemas de limites com eles. A esta altura da leitura eu quase podia ouvir minha voz dizendo a mim mesma ‘Opa, peraí, eu sou assim!’.
A personagem então expõe o seu problema e foi como se eu estivesse vendo um espelho que refletia minha forma de agir: “Para ter problemas com limites, é preciso primeiro ter limites, certo? Mas eu sou inteiramente tragada pela pessoa que amo. Sou como uma membrana permeável. Se eu amo você, eu lhe dou tudo que tenho. Dou-lhe o meu tempo, a minha dedicação, a minha bunda, o meu dinheiro, a minha família, o meu cachorro, o dinheiro do meu cachorro, o tempo do meu cachorro – tudo. Se eu amo você, carregarei para você toda a sua dor, assumirei por você todas as suas dívidas (em todos os sentidos da palavra), protegerei você da sua própria insegurança, projetarei em você todo tipo de qualidade que você na verdade nunca cultivou em si mesmo[...]”
E foi aí que eu percebi que a minha forma de agir com relação à outra pessoa ainda tinha um agravante: eu sou orgulhosa e finjo que tudo o que eu faço não é por amor. Claro que não é. É por carinho, por gratidão, porque eu te adoro, porque você é importante para mim. Não, eu absolutamente não te amo. Eu costumava achar que eu agia assim para evitar maiores sentimentos, mas não – é orgulho, puro e simples. E é assim que eu vou perdendo as pessoas. Ou eu sou excessiva, ou eu faço parecer que o que sinto é menor do que parece (e eu sou tão boa nisso que as pessoas realmente acreditam; ou eu pelo menos eu acho que acreditam).
E enquanto escrevo isso eu me pergunto se o problema todo não reside no fato de eu tentar me entender, eu que sou tão complicada e esquisita. Eu que queria compreender porque agora estou sozinha, mas que também não queria compreender. Eu que queria voltar no tempo e prestar mais atenção em todas as minhas ações, mas ao mesmo tempo não queria. Eu que queria ter sido menos orgulhosa, mas que também não queria. Eu que queria ter sido mais carinhosa, mas ao mesmo tempo não queria. Eu que acordei hoje achando esse mundo pior e mais injusto do que o normal - eu que nem fui vítima de nenhuma injustiça – eu que tinha acabado de me acordar.
Eu vi o céu azul e não gostei; eu levantei minha cabeça e doeu; eu tentei fazer o que tinha para fazer e não fiz. E então eles vieram: os pensamentos. Aquela tristeza e aquela agonia pedindo minha atenção.
A verdade é que há tempos não era assim.
É que quando a dor e a saudade me deixaram em paz, eu comecei a sentir nada e sentir nada é incômodo. Na falta de mim mesma, eu finalmente senti desespero. Eu queria loucamente sentir algo novamente – algo que não fosse essa angústia de não sentir nada. Eu queria viver de novo, mesmo que doesse. Eu preferia sentir dor a sentir nada.
E eu consegui.
O problema é que agora estou com medo, muito medo de me machucar novamente. A idéia de eu ter me colocado em algo que me põe em risco é perturbadora e parece que todo dia tenho pelo menos três descargas de adrenalina só de pensar que se tudo acabar mal, a dor vai ser bem maior do que na última vez.
Apesar disso, todo dia sou tomada por uma ansiedade que faz meu estômago dar cambalhotas e parece que se eu quiser, se eu quiser mesmo, sou capaz de saltar de mim mesma e viver tudo isso com uma intensidade e uma alegria duas vezes maior do que a que efetivamente sinto.
Só que, no fim do dia, sou só eu. No fim do dia eu estou sozinha e eu sou um perigo para mim mesma.No fim de todo dia eu vejo que pude sentir tudo o que há de bom para se sentir, mas que todas as sensações boas se restringem a poucos momentos que eu nem posso dizer que são reais. Ou pelo menos não posso dizer que são momentos que eu deva levar a sério. E essa espera por uma possível tristeza me traz uma agonia com a qual eu não sei lidar.
No fim do dia eu acabo me perguntando se não era melhor quando eu não sentia nada.
E aí eu percebo que é melhor eu desistir de tentar me entender.
"I think I'll get outta here where I can Run as fast as I can To the middle of nowhere To the middle of my frustrated fears" (Just Like a Pill - Pink)
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