Não. Não melhor: mais facilmente. As palavras vão escorrendo por meus dedos até que eu as percebo em minha frente.
Faz poucos dias eu pensei sobre o céu, pensei sobre estrelas e sobre coisas e pessoas brilhantes como elas – quis escrever sobre isso. Todo dia ao acordar eu olho pra abóboda celeste e vejo sua cor. O azul sempre me incomoda. Houve uma época em que eu sorria ao sentir o sol me tocar a pele e me espiar de toda aquela distância, até que eu descobri que eu preferia que as nuvens me seguissem e me vigiassem.
Cansei do calor do sol. Quero pedaços de algodão todo dia, pincelando o céu de branco e cinza.
Da noite eu gosto. O azul escuro e o negro trazidos pela lua me satisfazem e os pontinhos brilhantes de estrela me comovem. Vejo cada estrela como uma amiga em potencial e um pedido em especial. Não, não me julguem interesseira. É só que cresci pensando que quando eu me fosse desse mundo eu viraria aquele brilho pontual e a idéia de que um dia me apontariam como algo bom de ser visto é de meu agrado. Não sou grotesca, mas há quem desvie o olhar quando minha presença se faz notar.
Minha presença existe em vários lugares, mas sou tão imprecisa que às vezes nem eu sei onde estou e quando estou me sinto tão sozinha que preferia não estar. Vivo fingindo que pertenço a algum lugar, e consigo me enganar; mas então vem a noite e quando só tenho as estrelas, percebo que somos só eu e o céu. Aí sinto o buraco do vazio de novo - aquele velho conhecido – e o peso dele que junto ao meu peso, faz eu me cansar só de pensar no que tenho que carregar todos os dias.
Ontem eu caí. Escorreguei e me estatelei no chão. Eu estava de vestido e meio fora de mim porque o álcool ontem não quis ser meu amigo – quis lutar contra mim. Eu caí e senti que era pesada. Se o álcool estivesse meu amigo, eu nem teria sentido a dor do tombo e só perceberia meu peso hoje pela manhã quando vi a mancha roxa em meu joelho.
O fato é que doeu e eu nem vi o céu ontem - e isso é algo que me incomoda. Quando eu caí e me ergui consegui rir ao ouvir uma piada por perto de onde eu estava. E então olhei para frente e vi alguém a acenar-me um adeus. E foi um adeus tão real e tão ridículo que eu quis rir e eu ri em meio ao gosto salgado das lágrimas que eu já vinha derramando. Eu quis ser uma estrela. As estrelas quando choram deixam lágrimas brilhantes e bonitas de serem vistas.
E quando as estrelas caem, elas concedem desejos às pessoas. Talvez nisso eu seja uma estrela: quando eu caio e me machuco, há quem se satisfaça por ter o seu desejo atendido. Ontem quando caí e meu joelho doeu, meu coração também gritou. A agonia foi tanta que se eu fosse estrela eu teria me apagado. Tenho todos os motivos para ir para o céu, só preciso de uma condução porque não sei que rumo tomar.
E ontem eu não vi o céu. Eu não vi se ele tinha algum brilho.
Por que isso me incomoda tanto?
Eu te digo por quê: Porque viver um adeus sem cenário é asséptico para mim. É simplesmente cruzar por um porta ao final de um corredor branco e limpo só porque sobre ela há uma placa que indica a saída. Quando eu fechei a porta eu acho que percebi que eu tinha deixado o céu do lado de fora.
E acho que ainda não me acostumei com essa escuridão aqui dentro. Nunca gostei da claridade, mas tinha me esquecido de como é a escuridão. Tatear o vazio é difícil e admito que preciso de algum apoio.
Percebi também que meu joelho e meu orgulho agora são amigos – acho que é porque os dois estão feridos. Quando eu caí e me expus toda, ouvi meu orgulho rasgar. Será que era sobre isso a piada que me fez rir? Pois bem, saibam que rir não é o melhor remédio. Ainda dói e sangra e nem que passassem o dia me fazendo cócegas eu estaria curada.
Às vezes me canso de pensar. As imagens e sons passam pela minha cabeça e me afligem. Eu tento fugir delas e colocar dentro da minha caixa craniana a escuridão que tenho em volta, mas ela não entra. Meus pensamentos gostam de ser coloridos e vívidos como o céu azul – acho que talvez por isso me incomodem.
Quando eu vejo tudo escuro eu me imagino sendo bem vinda em algum lugar e por alguém especial. Alguém que me recebe em um colchão de estrelas e me aponta o céu sem medo de ganhar uma verruga por minha causa – tenho certeza que as estrelas brilham mais quando são apontadas em meio à luz de todas as outras e porque estou magoada, não quero tentar entender quem pensa diferente disso; só quero ter esse alguém que acredite no mesmo que eu.
Contei para uma estrela que estou sendo levada pela correnteza. Não cheguei a comentar que eu achava que na escuridão do fundo eu estaria protegida de me levarem, mas eu pensei. Não sei qual é meu ponto final, mas eu tenho certeza que me levam para longe de onde eu queria estar.
Sei também que continuar abaixo da superfície só me deixa mais longe do céu, além de não me proteger de nada. Penso que sei que no fim me levarão para um lugar em terra ou para abaixo dela então não me esforço para sair daqui.
Posso parecer mórbida, mas é que não nasci para brilhar. A mesma treva que me assusta, tem me acolhido de tempos em tempos, então só me despedirei dela quando conseguir superar esse apego que crio pelas coisas.
Quando isso acontecer, espero que o cenário seja um céu estrelado.

gostei do post, dá uma olhada no meu blog se quiser, http://brunarafaelaworld.blogspot.com/ beijos @brunarafaelam
ResponderExcluirIsso ficou INCRIVEL! e vc sabe que eu não diria isso só pra te agradar. vc escreve bem DEMAIS, amiga. tenho mto orgulho disso.
ResponderExcluire tenho mto orgulho de vc <3
Concordo com a Anna aí em cima. Em tudo. Todas as palavras e letras. Manda um 2 aí.
ResponderExcluirEsse é o tipo de texto que nem poucos que eu li por aí, que me intriga não entender todas as partes. Poucos escritores, de todos que li até hoje, me deixam até hoje nervosa e ansiosa, porque eu quero perguntar: ei, o que essa parte aqui quer dizer?, mas não consigo.
Obrigada por esse texto lindo, Dani.
Como o anterior, me deixou com uma vontade absurda de fazer o blog que eu te disse. Só vou fazer com calma, porque dessa vez tem que ser direito ;)
meu nariz tá formigando.. acho que vc sabe o que isso significa né? ficou lindo. Você pode achar que ficou confuso, mas ele só reflete a confusão que tem dentro de todos nós.. quanto mais confuso você escreve, mais real ele fica e mais eu me identifico. Será que não fomos feitas pra brilhar? Será que só os reis do passados podem virar estrelas? (Rei Leão.. er)
ResponderExcluirMas você brilha sim, talvez ainda não seja uma estrela, mas brilha pra mim e pra todos que olham na direção certa. Pode ser um vagalume..
eu adorei seu texto :*
ótimo de novo,não sei,mas segurei pra não chorar. é como a lari disse quanto mais confuso fica,mais real é. uma pena que de certa forma desejar outros texto implica um tormento maior para que o texto te escape... enfim, parabéns por mais um texto lindo.
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